Em 1934 o futebol brasileiro vivia um tempo de mudança entre o amadorismo e o profissionalismo. Para poder montar uma seleção para a Copa, a CBD precisou contratar os jogadores dos clubes, algo que não agradou dirigentes, como o do Palestra Itália, que para não ter de ceder jogadores, escondeu seus melhores atletas em um sítio.
Torcedores revoltados com a campanha do Brasil, elegeram o clube como um dos culpados e quiseram depredar a sede. O caso terminou em pancadaria e gente presa.
Contexto histórico de uma briga causada pelo bairrismo
É importante lembrar que o jovem esporte nacional, ainda amador, vivia basicamente dividido entre jogadores de São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores potências do futebol nacional até então, pela quantidade maior de clubes, de jogadores, dirigentes e até mesmo uma questão geográfica.
Porém, a rivalidade sempre atrapalhou tudo. Por volta de 1914 começou a confusão. No Rio foi criada a FBS, a Federação Brasileira de Sports — que depois se tornaria de fato a CBF- enquanto que em São Paulo, haviam criado a FBF, a Federação Brasileira de Futebol, que era filiada à Confederação Sulamericana. A rivalidade entre os dois estados que já era grande na política, ganhava também uma disputa futebolística. E esse embate inicial durou até 1916 a rixa que só seria resolvida com a criação da CBD, no Rio.
E assim, entre o final da década de 1910 e toda a década de 1920, o Brasil tinha oficialmente uma seleção que disputava competições, amistosos e ganhava títulos, como a Copa América. Sempre contando com jogadores do Rio e de São Paulo.
Ok, nem sempre.
CBD x APEA — a queda de braço de 1930 e uma seleção carioca
E foi na década de 1930, o futebol brasileiro enfrentou uma ruptura que fez muito mal para a nossa seleção, em especial para a Copa do Uruguai.
A imprensa esportiva carioca e a CBD, acreditavam que era possível montar uma seleção forte para a recém criada Copa do Mundo, em São Paulo, como você deve imaginar, o discurso era parecido, mas defendendo os atletas paulistanos.
A confusão se deu quando a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) pediu para a CBD que se incluíssem dirigentes paulistas na comitiva que iria representar a seleção na Copa. Algo que foi sumariamente ignorado pelos cariocas.
Começava ali uma queda de braços, que pra resumir, fez com que a seleção de 1930 não tivesse um jogador paulista em seu elenco.
Ficaram de fora nomes como Feitiço e Friedenrich (apesar de veterano ainda um craque).
Amadorismo x profissionalização
Depois do fiasco da Copa de 1930, os paulistas até voltariam à seleção em amistosos e outros torneios. Até que em 1932, mais uma vez a política falaria mais alto e estouraria a Revolução Constitucionalista em São Paulo.
Os clubes ainda traumatizados pelos conflitos bélicos, não liberavam jogadores para a seleção. Enquanto isso, a seleção formada por cariocas impressionava o futebol Uruguaio (vencendo os campeões mundiais na Copa Rio Branco, jogando em Montevidéu e depois vencendo Peñarol e Nacional, também fora de casa).
Impressionados com jogadores como Leônidas e Domingos da Guia, os uruguaios quiseram contratá-los de seus clubes brasileiros.
Algo ainda inédito no amador futebol brasileiro, formado essencialmente por jogadores que tinham outros empregos e o que ganhavam no futebol era basicamente através de premiações de empresas, o famoso “bicho”.
Em 1933, pela primeira vez os clubes se tornariam oficialmente formados apenas por jogadores profissionais que viviam exclusivamente de jogar bola. Quem liderou esse movimento foi a FBF, enquanto a CBD ainda era uma entidade de futebol amador.
Em 1934 uma seleção desmembrada vai à Copa
E foi nesse cenário que chegamos à Copa de 1934, onde FIFA (e pra falar a verdade nem mesmo a CBD) reconheciam a FBF como entidade oficial e precisava de uma lista de atletas que iriam para a Itália.
Nessa altura, os melhores — os profissionais- eram ligados à uma entidade que teoricamente não era oficial. Imagina a confusão?
CBD e FBF até tentaram chegar num acordo para juntar amadores e profissionais. Uma das ideias que surgiram foi a mais simples de todas: pagar para os jogadores convocados irem para a Copa.
Mas aí quem não gostou disso foram os clubes e a FBF ameaçou desfiliar todo mundo que cedesse jogador para essa empreitada.
E foi assim que uma seleção que quase nunca jogou junta foi para a Itália, na base de jogadores sendo contratados para vestirem a camisa da seleção, como se fosse um outro clube.
Poucos foram os que cederam atletas e o Brasil foi formado basicamente por jogadores do Botafogo, São Paulo da Floresta e Vasco.
Enquanto muitos clubes não aceitavam a proposta de “ceder” jogadores, entre eles, o Palestra Itália, que para evitar que seus jogadores fossem assediados e contratados para jogar a Copa do Mundo, deu um sumiço em jogadores, entre eles o craque Romeu Lara, Gabardo, Junqueira e Tunga que chegaram a ser escondidos numa fazenda em Matão, no interior do Estado.
Na ocasião, a fazenda foi cercada de guardas armados. Como o lugar era tenebroso, assustando até os próprios jogadores, precisou que um diretor do Palestra Italia os transferisse para sua casa de praia.
Na Itália, o Brasil faria apenas uma partida, contra a Espanha. Como a Copa era disputada em um formato diferente, sendo apenas em partidas eliminatórias, perdeu, tchau.
Foi o que aconteceu.
3 a 1 para a Espanha e a seleção brasileira voltou pra casa.

Como em 1934 as partidas não eram transmitidas por rádio, os torcedores ficavam sabendo do resultado por mensagem recebida via telégrafo.
Quando a mensagem chegava, afixava-se nos muros o resultado, para alegria ou desespero dos torcedores.
Naquele dia foi de tristeza.
Um dos locais onde a notícia chegava primeiro era no prédio dos Diários Associados, no centro de São Paulo.
Por uma curiosa coincidência, ficava exatamente no mesmo prédio onde era a primeira sede do Palestra Itália.
Revoltados com o placar da partida, os torcedores mais exaltados resolveram então descontar no clube e o pau cantou.
Uma nota do Jornal do Brasil do dia 29 de maio de 1930 traz a história completa do que rolou:
A INDIGNAÇÃO DO POVO PAULISTA CONTRA OS CULPADOS, EM S. PAULO, DA DERROTA DE ANTEONTEM
A Praça do Patriarca viveu hoje à tarde momentos de animação.
Logo depois de haver sido conhecido o resultado do primeiro tempo do jogo Brasil e Espanha (…) uma enorme multidão que apreciava os cartazes afizados nos “Diários Associados”, em cuo prédio, no andar superior, se encontra a sede do Palestra Itália, para ali se dirigiu em grande tumulto e gritaria.
Fizeram os presentes uma manifestação em desagrado ao Palestra Italia em virtude de sua atuação impedindo que o quadro nacional na disputa do campeonato do mundo pudesse contar com alguns dos seus elementos que, como se sabe, com o consentimento da diretoria teriam fatalmente seguido para a Italia. Quando se soube do resultado final do jogo em que os brasileiros perderam por 3 x 1, a multidão não mais se conteve e investiu contra a sede do Palestra que já então se encontrava fortemente guardada por guardas-civis e policiais.
A algazarra e a gritaria continuaram durante toda a tarde e até à noite, tendo sido efetuadas algumas prisões.
Fontes:
Jornal do Brasil, 29/05/1934



Deixe um comentário