Roberto Baggio contra a Nigéria em 1994 (Foto: AP Photo/Luca Bruno)
O futebol é um lugar muitas vezes injusto. Nossa memória como torcedor brasileiro vai sempre lembrar de Roberto Baggio por um lance e dar a ele apenas um papel na história do futebol: o do cara que isolou um pênalti decisivo e deu o Mundial pro Brasil.
Naquele chute, Baggio não apenas teve sua reputação marcada pra sempre, ele fez sua seleção perder a chance de comemorar o tetracampeonato de futebol diante de um adversário direto na disputa pela hegemonia de títulos da Copa do Mundo.
“Sigo sem me perdoar pelo pênalti desperdiçado na final do Mundial de 94 contra o Brasil. Não há religião que importe. Naquele dia, eu poderia me suicidar e não iria sentir nada”, disse em entrevista recente para o “La Repubblica”.
Baggio momentos depois de perder o pênalti em 1994 (Foto: AP Photo/Luca Bruno)
Mas Roby, como é conhecido por muitos italianos, foi muito maior do que sua ida do céu ao inferno em terras norte-americanas. Baggio foi um gigantesco craque de futebol e merecia ter tido uma carreira ainda mais brilhante e um reconhecimento ainda maior.
Em toda sua carreira, disputou 700 jogos e marcou 317 gols. Muitos deles são verdadeiras pinturas. Se tinha uma característica marcante em Baggio, era a capacidade de fazer golaços, especialmente iniciados de uma grande jogada individual, quebrando defesas em velocidade, mais ou menos como Messi gosta de fazer.
O exemplo disso é esse golaço aqui contra a Tchecoslováquia na Copa de 1990, seu primeiro gol em Copas:
Fora da seleção, um craque de várias cores
Jogando por clubes, Roby igualou o lendário Giuseppe Meazza e também vestiu a camisa dos três maiores clubes italianos: Juventus, Milan e Inter. Foi querido pela torcida de todos eles e ídolo na Juve, onde viveu o auge de sua carreira, se tornando um dos 10 maiores artilheiros da história da Vecchia Signora.
Ele ganhou duas vezes o scudetto do campeonato italiano (1994/95 pela Juventus e 1995/96 pelo Milan), uma Copa UEFA (pela Juve em 1993) e uma Copa da Itália (em 1994/95 também pela Juventus).
Baggio começou sua carreira profissional no mesmo ano em que a Itália se sagrou tricampeã do mundo, em 1982, no Vicenza. Teve boa passagem pelo Bologna: “Sem problemas nos joelhos, teria sido o melhor do mundo”, disse Carlo Mazzone, técnico que dirigiu Baggio, em 1998, quando o ele ajudou a equipe bolognesa a sair se livrar do rebaixamento e se classificar à Copa da Uefa;
Também viveu uma conturbada ida para a Fiorentina, atrapalhada por muitas lesões e pela polêmica mudança para a Juventus que causou revolta nos torcedores de Florença em 1990, com direito a novela e quebra-quebra.
Seu último time foi o Brescia, onde teve uma passagem marcante, especialmente na temporada de 2000/2001 onde, ainda sonhando em estar entre os convocados para a Copa do Japão e Coréia do Sul, ajudou o time a chegar ao oitavo lugar da Série A.
Se despediria dos gramados em 2004.
Foi na Juve no ano de 1993, o melhor ano da carreira, quando além de títulos com o clube, conquistou os prêmios de Melhor jogador do mundo pela FIFA (e nenhum outro italiano ganhou o prêmio desde então) e o Ballon d’Or, entregue pela France Football ao melhor jogador europeu. Era nesse clima que Baggio chegaria à Copa de 1994.
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“Nesses últimos anos, ninguém ofereceu aos italianos um futebol tão bom, nem tanto assunto para conversa. O futebol de Roberto Baggio tem mistério: as pernas pensam por sua conta, o pé dispara sozinho, os olhos veem os gols antes que aconteçam”.
(Eduardo Galeano em “Futebol ao sol e à sombra”).
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Budismo
A relação de Baggio com a religião começou na pior fase de sua vida. Segundo contou numa entrevista, ele chegou a pedir à sua mãe que o matasse no dia seguinte à sua primeira operação de uma grave lesão no joelho. Ele tinha só 18 anos e tinha acabado de acertar sua ida do Vicenza para a Fiorentina.
Foi no budismo que ele encontrou forças para conseguir se firmar, após quase três anos lutando contra as frequentes lesões. E foi convocado para sua primeira Copa em 1990. Essa história foi contada recentemente no filme “O Divino Baggio”, da Netflix, uma versão dramática da biografia de Roby.
Na seleção poderia ter sido maior
Pela Azzurra foram 56 jogos e 27 gols marcados, entre 1988 e 1999. Não conquistou nenhum título. O mais perto foi a fatídica final da Copa de 1994.
Sua primeira convocação foi em 1988 após uma ótima temporada pela Fiorentina e brilhou logo na estreia: uma vitória em cima da Holanda — atual campeã da Euro e sensação do continente — por 1 a 0, sendo responsável pela assistência no gol de Vialli.
Com mais altos do que baixos na carreira, as convocações para competições oficiais não aconteceram como ele merecia, foi assim nas ausências das convocações para as Euros de 1996 e 2000.
Já veterano, Baggio fez sua despedida pela Seleção Italiana em abril de 2004, no empate de 1 a 1 contra a Espanha em um amistoso, na época muita gente também pedia sua convocação para disputar as Olimpíadas de Atenas, e mesmo antes de rolar um convite oficial, ele já disse que não iria.
Em compensação, Baggio viveu ótimas histórias em Copas do Mundo. Roby disputou 3 Copas do Mundo (1990, 1994 e 1998) e fez 7 gols em 16 jogos do Mundial e é até o momento o único jogador italiano a marcar gols em três mundiais diferentes.
Também foi eleito em votação popular
Noites mágicas de 1990
Baggio teve uma ótima fase na Fiorentina na temporada 1989/90, terminando com um vice-campeonato da Copa UEFA, que o credenciou, aos 22 anos, a ser convocado para a seleção na Copa que seria em casa.
Roberto Baggio em foto de divulgação sua primeira Copa do Mundo (Foto: Divulgação)
Começou o mundial na reserva, mas entrava na maior parte dos jogos. E foi quando finalmente ganhou a titularidade que marcou seu primeiro gol em Copas, contra a Tchecoslováquia. O outro gol foi do outro jovem atacante Schillaci, que ao lado de Baggio encantou a Itália neste Mundial.
Juntos foram decisivos nas “noites mágicas”, em duas memoráveis partidas da Azzurra, nas oitavas contra o Uruguai e nas quartas contra a Irlanda.
O sonho do tetra em casa pararia na Argentina de Maradona e Caniggia, em uma emocionante partida que terminou em disputa de pênaltis. O então jovem Baggio bateu mal, mas marcou o seu.
Restava a briga pelo terceiro lugar contra a Inglaterra e desta vez deu Itália, 2×1, com direito a mais um belo gol de Baggio.
1994: badalação pré-Copa e uma fase de grupos complicada
Não há dúvidas de que Baggio seria o nome da Copa de 1994.
Ele chegou voando baixo, brilhando no clube, motivado com o nascimento de seu segundo filho, Mattia, premiado como Melhor do Mundo e com uma equipe à sua volta que mantinha uma base legal da seleção de 1990. Do seu lado ele tinha nomes como: Baresi, Maldini (ainda jovem), Donadoni, entre outros. Era um bom time, mas não engrenou logo de cara.
Figurinha de Baggio no álbum da Copa de 1994 (Foto: Reprodução / Panini)
A equipe começou mal a fase de grupos onde jogou contra México, Noruega e Irlanda.
Na partida contra a Noruega, ele e o treinador Arrigo Sacchi tiveram um arranca rabo.
Era uma partida tensa e a Itália não poderia perder ou seria eliminada precocemente. Em um dado momento, o goleiro Pagliuca foi expulso após colocar a mão na bola fora da área e o escolhido para ser substituído para a entrada do goleiro reserva foi justamente Roberto, que não fazia uma baita partida, mas era o craque da equipe, camisa 10, esperança de gols, etc. Com razão, ficou uma arara ao sair.
Em entrevista anos depois Sacchi explicou que até um pouco tempo antes, Baggio era um grande amigo seu, mas que andava meio bolado com ele e a relação andava estremecida. Baggio achava que Sacchi tinha traído essa amizade, Segundo Sacchi, foi uma escolha difícil, porque ele era treinador de Baggio e também da seleção. Por isso tentou preservar tanto Baggio quanto a seleção naquele momento. Fez sentido pra você? Nem pra Baggio.
Fato é que a Itália venceu aos trancos e barrancos e conseguiu se classificar no grupo em terceiro lugar graças a critérios de desempate e precisaria enfrentar a sensação/surpresa da Copa até aquele momento: a Nigéria.
1994: Craque do mata-mata e lesão
Contra a Nigéria, a Itália também não teve vida fácil e quase a classificação subiu no telhado. A Nigéria saiu na frente e a azzurra teve que suar até o último minuto, quando brilhou a estrela de Baggio e ele empatou a partida. Seria dele também o gol da classificação na prorrogação. Nesse jogo ele sentiu uma fisgada na coxa, mas não falou pra ninguém com medo de ser sacado do restante do mundial.
Contra a Espanha, nas quartas-de-final, Baggio foi novamente decisivo ao garantir a vitória marcando novamente no finzinho do jogo, desta vez um belo gol driblando o goleiro e colocando a Itália em mais uma semifinal depois de um jogo duríssimo. Nesse jogo a lesão que apareceu contra a Nigéria ficaria ainda mais evidente, mas mesmo assim Roby seguiu firme em busca do sonho do tetra.
Sua grande partida na Copa de 1994 ficaria para a semi contra a Bulgária de Stoichkov, outra sensação daquele mundial. Baggio marcou dois belos gols, pra alegria da grande torcida italiana nos EUA.
Baggio enfrentando a defesa da Bulgaria em 1994 (Foto: Reprodução / Twitter)
A má notícia desta partida foi o agravamento de sua lesão na coxa que lhe deixou com apenas 50% de chances de jogar a decisão contra o Brasil e o técnico Sacchi pediu para que ele mesmo decidisse se iria ou não jogar a decisão. O que você faria no lugar dele?
1994: Baggio entra pra história das Copas de um jeito dramático.
Dali em diante a história é conhecida de trás pra frente por quase todo torcedor da seleção brasileira: Brasil e Itália fazem uma partida difícil, calor absurdo em Los Angeles, 0 a 0, pênaltis e o tetra pra nós depois de Roberto Baggio perder o pênalti.
O que nem todo mundo lembra é que Baggio jogou a base de infiltrações e em vários momentos da partida pareceu estar com o “freio de mão puxado”.
Foi uma partida bem disputada com boas chances de ambos os lados, apesar de haver quem entenda que o Brasil merecia ter vencido o jogo no tempo normal, especialmente pelo bom primeiro tempo que fez.
Mas a história poderia ter sido bem diferente para Baggio e sua Itália. Aos 37 recebeu sozinho na entrada da área, mas bateu por cima do gol. Aos 6 do primeiro tempo da prorrogação, obrigou Taffarel a fazer boa defesa quando mandou uma paulada do meio da rua. Aos 8 do segundo tempo da prorrogação fez uma linda tabela e saiu sozinho dentro da área do Brasil, mas faltou perna e o chute saiu fraco nas mãos de Taffarel mais uma vez.
Não teve jeito e pela primeira vez na história das Copas, uma final seria decidida nos pênaltis.
Pelo lado italiano, Baresi abriu a sequência de pênaltis jogando a bola por cima do gol. Numa cobrança muito parecida com a que transformaria Roby em vilão minutos depois.
Márcio Santos também desperdiçaria sua cobrança e deixava a disputa indefinida ainda na primeira rodada de cobranças. Dali em diante ninguém mais perderia, exceto por Massaro, que na quarta cobrança bateu muito mal entre o meio e o canto direito e acabou acertando as mãos de Taffarel (que cá entre nós, teria a defesa anulada hoje em dia, de TANTO que se adiantou. Para nossa sorte, a regra era outra em 1994).
Dunga marcaria o quarto pênalti brasileiro e jogava a pressão toda em Baggio, ele precisaria marcar pra poder manter a Itália viva na disputa.
Em sua autobiografia, Baggio tentou explicar o lance decisivo:
“Quanto ao pênalti, não quero me gabar, mas só errei alguns na minha carreira. E eles foram porque o goleiro acertou, não porque eu errei o alvo. Quando fui para a marca da cal, estava bem lúcido. Sabia que Taffarel sempre pulava para um canto, então tentei chutar no meio, a meia altura, para ele não poder pegar com os pés. Foi uma decisão inteligente porque Taffarel foi para a esquerda e nunca teria defendido o chute do jeito que eu havia planejado”.
Em entrevista para a Globo, em 2010, ele comentou:
“Nunca havia cobrado um pênalti por cima do gol. Acho que foi o (Ayrton) Senna que puxou aquela bola para o alto. (…) É uma ferida que nunca vai se fechar. Sempre sonhei em disputar uma final de Copa do Mundo e o rival dos meus sonhos era o Brasil. Quando tive a oportunidade, desperdicei aquele pênalti. Na hora, quis cavar um buraco para me esconder. Depois, pensei que, como o Brasil tem muito mais habitantes que a Itália, eu fiz mais gente feliz com aquela cobrança”.
A redenção na França
Em 1998, Baggio tinha acabado de sair de forma conturbada do Milan e vivia um bom momento no Bologna marcando 22 gols em 30 jogos, o que o credenciou a uma convocação para a Copa.
Em terras francesas, ele alcançou mais um marco histórico: se tornou o primeiro jogador italiano a fazer gol em três edições da Copa do Mundo ao marcar na partida de estreia contra o Chile, que acabou 2 a 2. Curiosamente, o gol foi de pênalti.
Baggio marca contra o Chile em 1998 (Foto: NyTimes / Agence France-Presse)
Esse gol foi tão simbólico para Roby, que depois do Mundial foi transformado em uma propaganda que reviveu o drama de 1994 e o levava se redimindo em uma nova chance em um novo pênalti:
Na primeira fase da Copa, Baggio ainda jogaria contra Camarões e Áustria (onde marcou seu último gol com bola rolando em Copas).
A Itália passaria pela Noruega nas oitavas e pegaria a França nas quartas-de-final. Nessa jogo, Roby saiu do banco e entrou aos 30 do segundo tempo. Após um jogo bem equilibrado, a decisão ficou para os pênaltis.
Desta vez Baggio marcou e ainda saiu tirando onda, pedindo silêncio para os torcedores franceses. Infelizmente em vão, Albertini e Di Biagio erraram, deixando a vaga para os “Bleus”.
O destino seria cruel com a parceria de Baggio com a seleção. Terminava mais uma vez o sonho do tetra para a azzurra nos pênaltis e a história de Roby com a Copa do Mundo.
A decepção de 2002
“Pela primeira vez, eu talvez pareça arrogante, mas eu merecia ser convocado para a Copa do Mundo de 2002, ainda que houvesse algumas dúvidas sobre o meu físico”, desabafou.
Depois da Copa de 1998 Roby tinha realizado o desejo de defender o time de coração, a Inter de Milão, mas o que parecia um sonho no começo, acabou dando tudo errado e ele acabou amargando dois anos na reserva. Quando o contrato acabou foi jogar no modesto Brescia, aos 35 anos de idade.
E fez bonito. Baggio estava inspirado e fazia de tudo pra conseguir uma vaga entre os 23 convocados de Trapattoni. No entanto, a busca por uma vaga ganhou contornos dramáticos.
Roberto Baggio bem que podia estar na seleção que foi ao Japão e Coréia (Foto: Lapresse)
Pouco antes do Mundial do Japão e Coréia do Sul ele sofreu uma grave lesão no joelho, mesmo assim conseguiu uma recuperação milagrosa e teria condições de ir à Copa. O maior exemplo disso foi seu jogo de volta, onde meteu dois gols na vitória do Brescia contra a Fiorentina. Parecia claro que ele mereceria ser convocado. Infelizmente não foi.
“Foi uma decepção profunda, semelhante à de Pasadena [na final de 1994]”, revelou Baggio.
Fontes:
- O Nariz Quebrado e a Polêmica entre Luis Enrique e Tassotti na Copa de 94

- A Surpreendente Costa Rica: A Grande Zebra do “Grupo da Morte” na Copa de 2014

- Copa do Mundo de 1974: Um Confronto Simbólico e Histórico entre Alemanhas

- A Desventura Inglesa na Copa de 1950: Arrogância, Desorganização e a Queda de Um Gigante

- Messi e Van Gaal: Rivalidade Memorável na Copa do Mundo 2022

- A Dança do Pombo: Alegria e Polêmica na Seleção Brasileira em 2022









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