Por muito tempo, o futebol foi o refúgio do brasileiro em meio às dificuldades. No estádio, na TV ou no rádio, a paixão pela bola anestesiava as dores da vida: a crise financeira, o desemprego, os conflitos familiares e a inflação crescente. A seleção brasileira, vitoriosa, era um bálsamo para essas feridas. Mas e quando nem o futebol trazia alegria? A solução tinha nome e sobrenome: Ayrton Senna da Silva.

Um Espírito Vencedor nas Pistas

Durante seus dez anos na Fórmula 1 (1984-1994), Senna personificou o espírito do atleta brasileiro triunfante, figura geralmente associada aos craques do futebol. As semelhanças eram tamanhas que, em 1994, a expectativa era de uma dupla celebração: o tetracampeonato da Seleção na Copa do Mundo e o quarto título de Senna na Fórmula 1.

A Tragédia que Impulsionou um Sonho

Infelizmente, a morte prematura e trágica de Senna em Ímola interrompeu a busca pelo seu quarto título. Contudo, seu legado era tão poderoso que serviu de inspiração para a seleção brasileira conquistar a quarta estrela nos gramados dos Estados Unidos. Os jogadores se sentiram motivados e, de certa forma, acompanhados por Senna durante toda a competição. E há quem acredite que o piloto, em outro plano, teve uma participação ainda mais direta nessa conquista. Verdade ou superstição, Ayrton Senna se tornou o “Padroeiro do Tetra” nos Estados Unidos.

Um Ás do Volante que Conquistou o Brasil

Senna não foi o primeiro piloto brasileiro a cativar a torcida na Fórmula 1. Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet já haviam conquistado cinco títulos mundiais, e outros nomes como José Carlos Pace e Chico Serra também brilharam. Mas nenhum outro apaixonou tanto o brasileiro, a ponto de fazê-lo acordar cedo aos domingos para acompanhar as corridas.

Desde sua estreia na Fórmula 1 em 1984, Senna chamou a atenção. Pilotando pela modesta equipe Toleman, demonstrou um talento notável e logo foi contratado pela Lotus, uma equipe melhor, embora não de ponta, onde conquistou suas primeiras vitórias importantes.

Além de talentoso, Senna era arrojado, capaz de manobras difíceis e perigosas, o que tornava suas corridas sempre emocionantes. Diferente dos outros campeões brasileiros, mais estratégicos, ele era impulsivo e espetacular. Essa combinação o transformou em um herói muito parecido com os ídolos do futebol brasileiro.

A Marca Registrada que Nasceu no Futebol

A forte ligação entre Senna e o futebol o acompanhou por toda a vida. Em 1986, seu primeiro ano na Lotus, a participação do Brasil na Copa do Mundo no México o envolveu de tal maneira que ele adotou um gesto que marcaria sua carreira.

Tudo começou nos treinos para o Grande Prêmio dos EUA, em Detroit. Após garantir a pole position, Senna soube que o Brasil havia marcado contra a França nas quartas de final da Copa. Animado, ignorou a coletiva de imprensa e correu para o hotel para assistir ao restante da partida. Essa atitude se tornou comum: sempre que o Brasil jogava em Copas, ele desmarcava seus compromissos.

Naquele fatídico jogo, o Brasil sofreu o empate e foi eliminado nos pênaltis. Para piorar, a equipe da Lotus era majoritariamente francesa, o que fez Senna evitar o contato com os colegas para escapar das inevitáveis provocações. “Depois do jogo eu nem fui à garagem, onde o pessoal trabalhou a tarde toda. Só apareci domingo cedo, na pista”, confessou anos depois.

A derrota do Brasil motivou ainda mais Senna para a corrida. Ao cruzar a linha de chegada como vencedor, percebeu a presença de muitos brasileiros na torcida, um deles com uma pequena bandeira do Brasil. “Foi o instinto: eu parei e pedi a bandeira. Depois me deram, eu dei uma volta com a bandeira. Foi um dia especial”. Nos anos seguintes, ver Ayrton Senna empunhando a bandeira do Brasil se tornou uma cena constante, e tudo começou com uma derrota do Brasil em Copas.

Uma Trajetória Paralela aos Gramados

A partir daquele momento, Senna canalizou as esperanças de um Brasil que ansiava por voltar a sorrir. Nas décadas de 1980 e 1990, o país se livrava da Ditadura Militar, mas enfrentava uma profunda crise econômica, inflação galopante e escândalos de corrupção. O futebol, tradicionalmente o refúgio da população, também não vivia seu melhor momento, com o jejum de títulos mundiais desde 1970. Nesse cenário, Senna surgiu como a tábua de salvação do brasileiro. E cumpriu esse papel com maestria, conquistando os títulos mundiais de 1988, 1990 e 1991 pela McLaren.

Em suas 41 vitórias na Fórmula 1, três coincidiram com triunfos da Seleção Brasileira. A primeira vez foi em 1987, também em Detroit, quando Senna venceu Nigel Mansell e, horas depois, o Brasil derrotou o Equador por 4 a 1 em um amistoso em Florianópolis.

Dois anos depois, Senna superou seu grande rival, Alain Prost, no GP da Alemanha. No mesmo dia, o Brasil goleou a Venezuela por 4 a 0 pelas Eliminatórias da Copa do Mundo da Itália.

Em 1990, a terceira coincidência ocorreu no GP do Canadá. Senna deu um show e conquistou uma vitória crucial na busca pelo seu segundo título mundial. Pouco depois, o Brasil estreou na Copa do Mundo contra a Suécia, vencendo por 2 a 1.

Em Busca dos Tetras, no Asfalto e na Grama

Em 1994, Senna já era uma lenda mundial, um ícone que enchia os brasileiros de orgulho. No entanto, a má fase da McLaren o impedia de lutar por mais títulos. Essa situação o levou a trocar de equipe mais uma vez, indo para a Williams, que possuía o melhor carro da categoria e havia conquistado os títulos de 1992 e 1993.

Senna estava esperançoso em conquistar seu quarto título, mas abandonou as duas primeiras corridas com o novo carro, em Interlagos e no Japão.

O piloto brasileiro estava apreensivo, vendo Michael Schumacher se isolar na liderança. Senna precisava se preparar intensamente, inclusive psicologicamente, para o Grande Prêmio de San Marino, que aconteceria em 1º de maio.

Foi então que um grande amigo de Senna, o narrador Galvão Bueno, teve a ideia de animá-lo e distraí-lo da Fórmula 1: convidou-o para assistir a um amistoso da seleção brasileira contra um combinado de Paris Saint-Germain e Bordeaux, em Paris. Senna aceitou prontamente.

Naquele momento, a seleção de Parreira estava na reta final de preparação para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. A torcida estava animada com o retorno de Romário e depositava nele a esperança do Tetra, mas havia desconfiança em relação ao estilo de jogo do técnico.

Ao chegar em Paris, Senna foi convidado a dar o pontapé inicial da partida, gerando um encontro emocionante entre o piloto e os craques da seleção. Para sua surpresa, foi ovacionado pela torcida francesa, que o admirava apesar de sua rivalidade com Alain Prost.

Ao dar o pontapé inicial, Senna foi alvo de uma brincadeira de Galvão Bueno: “Aí a presença de Ayrton Senna! Não leva nenhum jeito pra coisa!”.

Logo em seguida, Senna enviou um recado motivador aos jogadores brasileiros: “Acelera daqui que eu acelero de lá!”. Anos depois, vários atletas lembrariam dessa frase nos momentos mais difíceis da Copa.

No intervalo da partida, em entrevista, Senna expressou seu otimismo em relação às chances da seleção na Copa: “No momento acho que a seleção está com mais chances do que a Fórmula 1”, afirmou.

Após o jogo, que terminou em um empate sem gols, Senna jantou com os jogadores, fortalecendo ainda mais os laços com o elenco. Ali, mais uma vez, lembrou a todos que estavam na luta por um título mundial. Foi selado um pacto entre o tricampeão de Fórmula 1 e os jogadores da seleção tricampeã mundial: “Eu vou ser tetra este ano e vocês vão ser também”, disse Senna.

O encontro e as palavras de Senna impactaram profundamente os jogadores, aumentando sua motivação para conquistar o título. “Nós ganhamos a Copa muito em função desse pacto que fizemos em Paris. Isso fortaleceu, criou um vínculo muito forte entre nós”, afirmou Mauro Silva anos depois. Zetti confessou que costumava acordar cedo aos domingos para ver Senna correr, um hábito mantido mesmo quando jogava no Bragantino, como uma espécie de “aquecimento” para os jogos da tarde.

O Fim de um Sonho e a Inspiração para Outro

Infelizmente, Senna não pôde cumprir sua parte no pacto. No dia 1º de maio, disputando o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, precisava vencer para diminuir a vantagem de Schumacher. Além da pressão pela vitória, estava sob forte estresse devido à morte do piloto Roland Ratzenberger no dia anterior, durante os treinos, e ao grave acidente de Rubens Barrichello.

Em meio a essa turbulência emocional, Senna foi para a corrida. Logo no início, um acidente forçou a entrada do safety car. Na sexta volta, após a relargada, Senna, que liderava, perdeu o controle do carro e se chocou violentamente contra a barreira da curva Tamburello. Socorrido e levado ao hospital em Bologna, sua morte foi confirmada horas depois.

A comoção foi imensa. Milhões de brasileiros acompanharam o cortejo fúnebre em São Paulo. O governo federal lhe concedeu honras de chefe de estado.

A tragédia chocou os milhões de fãs de Senna e os jogadores da seleção, que haviam feito o pacto do Tetra dias antes. “A gente viveu um momento muito triste com a morte do Senna. Eu estava na Espanha quando fiquei sabendo”, comentou Bebeto.

No entanto, a tristeza se transformou em um desejo ainda maior de vitória. “Aquela conquista a gente tinha de dedicar ao Ayrton. O Brasil se uniu. E a gente só tinha isso na mente: a gente tem de conquistar e dedicar ao Ayrton”, completou Bebeto. Mauro Silva também lembrou da tristeza e da determinação do elenco: “Estava aquele luto, e nós falamos: ‘Nós temos de ganhar essa copa pra dedicar ao Ayrton Senna’”.

A Ideia da Homenagem que Uniu uma Nação

Unidos pelo ideal de dedicar a Copa a Ayrton Senna, os jogadores começaram a pensar em uma forma de materializar esse desejo. Zetti relembrou que a ideia de estender uma faixa em homenagem ao piloto surgiu logo na viagem para os Estados Unidos. “A lembrança do Senna sempre era colocada em reuniões”.

Três pessoas se encarregaram de tornar a faixa realidade: o supervisor técnico Américo Faria, o goleiro Gilmar Rinaldi e o zagueiro Ricardo Rocha, este último um grande líder e motivador do grupo.

Mauro Silva ressaltou que a faixa só faria sentido com a conquista do tetracampeonato. A confecção e o transporte da faixa se tornaram uma verdadeira operação de guerra, enfrentando dificuldades na produção e na entrada nos estádios americanos, com suas rigorosas regras de segurança. “Eu não sei como conseguiram”, admitiu Zetti.

Após uma vitória dramática nos pênaltis contra a Itália, o Brasil conquistou o tão sonhado Tetracampeonato. A comemoração foi marcada por abraços, lágrimas e a exibição da tão esperada faixa.

Uma Homenagem que Ecoou pelo Mundo

A faixa com a mensagem “SENNA… ACELERAMOS JUNTOS. O TETRA É NOSSO” foi exibida para as TVs de todo o mundo, tornando-se uma das imagens mais icônicas da conquista brasileira. “Aquele momento de ganhar o tetra e levantar a faixa foi mágico”, relembrou Mauro Silva. Após a exibição, a faixa ficou com Américo Faria, que a guarda até hoje.

A emoção no campo contagiou as transmissões televisivas. Galvão Bueno, emocionado por narrar um título do Brasil, teve a voz embargada ao ver a homenagem ao amigo, enquanto a Rede Globo exibia o “Tema da Vitória”, a música que embalava os triunfos de Senna. “A Música da vitória, aquela que comemorava as vitórias de Ayrton Senna, que teríamos dois tetras este ano… Aí a homenagem dos jogadores a você, meu irmão Ayrton Senna. Nós teríamos dois tetras, a Seleção é tetra em campo, Ayrton Senna é o eterno campeão no coração dos brasileiros. Linda homenagem. E não poderíamos curtir de outra forma, o tema da vitória ao fundo, tocando. A bandeira brasileira volta a ser agitada…”.

A homenagem deixou claro que, para a seleção, a presença de Senna durante a Copa era real. “Eu tenho certeza que o Senna esteve com a gente em toda essa caminhada”, frisou Mauro Silva. “A seleção tinha 22 jogadores. Eu acho que o Ayrton foi o 23º”, definiu Ricardo Rocha.

Fonte: “30 Histórias do Tetra” (Fábio Mendes & Raphael Evangelista) / Ge.globo / Senna.com


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