A Copa do Mundo da FIFA de 1938, realizada na França, é frequentemente lembrada como a última edição antes da Segunda Guerra Mundial e a consagração do bicampeonato italiano. No entanto, por trás das manchetes esportivas, reside uma das histórias mais sombrias e trágicas do torneio: a ausência forçada da talentosa Seleção Austríaca, a lendária Wunderteam, devido à anexação da Áustria pela Alemanha Nazista, conhecida como Anschluss.
A Wunderteam e a Classificação Inquestionável
Antes de 1938, a Áustria era uma das maiores potências do futebol mundial. Conhecida como Wunderteam (Time Maravilha), a seleção austríaca havia encantado a Europa com seu “futebol de champagne” na década de 1930, liderada pelo técnico Hugo Meisl e em campo por figuras icônicas como o craque Matthias Sindelar. O Wunderteam ganhou a fama por ser imbatível, marca que se confirmou com uma sequência de 14 jogos de invencibilidade entre abril de 1931 e dezembro de 1932.
Também no ano de 1932, os austríacos conquistaram a “Copa Internacional Centro Européia”, que seria uma das versões embrionárias do que hoje é a EURO, ao vencerem a Itália por 4 a 2 na decisão.
E não foi só isso, na campanha que antecedeu a Copa de 1934, eles conquistaram grandes vitórias que entraram para a história, como duas goleadas em cima da Alemanha (5×0 e 6×0), outro 6 x 0 em cima da Suíça e um sonoro 8 x 2 em cima da Hungria. Eles chegavam para a Copa de 1934 como grandes favoritos ao título graças ao seu desempenho técnico e tático, mas acabariam eliminados pela Hungria e conseguindo apenas terminar a campanha na quarta colocação.
E nesse cenário de grandes resultados e expectativa, o Wunderteam chegava aprimorado e ainda forte candidato ao título da Copa de 1938.
A classificação para o Mundial da França foi obtida de forma categórica, após superar a Letônia nas eliminatórias, garantindo sua vaga no torneio. A expectativa em torno do desempenho austríaco era altíssima, e a Wunderteam prometia ser uma das protagonistas da competição.
O começou do fim, segundo estudiosos do futebol dos anos 1930, foi quando faleceu o técnico Hugo Meisl em 1937, um visionário do esporte, que transformou a forma como o futebol era jogado com inovações táticas de sua equipe.
O Anschluss: Uma Tragédia Política e Esportiva
Se esportivamente a Áustria já seria abalada com essa perda, o cenário mudou drasticamente em 12 de março de 1938. Em um movimento rápido e sem oposição internacional significativa, a Alemanha Nazista, liderada por Adolf Hitler, anexou a Áustria em um evento que ficou conhecido como Anschluss (Conexão ou União). De um dia para o outro, a Áustria deixou de existir como um estado independente, tornando-se uma província do Terceiro Reich.
A anexação teve consequências imediatas e devastadoras para a Seleção Austríaca. Com a eliminação da soberania austríaca, a Associação Austríaca de Futebol (ÖFB) foi dissolvida e seus jogadores foram declarados cidadãos alemães. Isso significava que a vaga da Áustria na Copa do Mundo não existia mais. A FIFA, pressionada pela nova realidade política e com a guerra no horizonte, viu-se em uma posição delicada. Embora a entidade não tenha formalmente expulso a Áustria, a anexação tornou a participação da equipe impossível. A vaga deixada pela Áustria não foi preenchida, resultando em um torneio com apenas 15 seleções participantes, e a Suécia, que enfrentaria a Áustria nas oitavas de final, avançou diretamente para as quartas no primeiro e único WO acontecido na história das Copas.
O Destino dos Jogadores e o Símbolo Sindelar
O impacto do Anschluss estendeu-se diretamente aos jogadores. Os melhores talentos austríacos foram forçados a se juntar à equipe alemã, que se tornou uma “Grande Seleção Alemã” com a inclusão de jogadores austríacos. No entanto, a integração foi difícil e recheada de atritos, com muitos jogadores austríacos se recusando a se adaptar ao estilo de jogo alemão e, em alguns casos, manifestando abertamente sua oposição ao regime nazista.
O caso mais emblemático foi o de Matthias Sindelar, o “Mozart do Futebol”. Conhecido por sua elegância e habilidade, Sindelar se recusou a jogar pela Alemanha unificada após o Anschluss. Ele teria se recusado a participar de uma “partida de unificação” entre Alemanha e Áustria em Viena, que terminou em 2 a 0 para os austríacos, em um gesto visto como desafiador pelo regime. Sindelar faleceu em circunstâncias misteriosas em 1939, um evento que muitos historiadores associam à sua resistência ao nazismo, transformando-o em um mártir da liberdade.
Em campo, o resultado dessa equipe “unificada” teve um desempenho decepcionante no torneio, empatando em 1 a 1 com a Suíça na partida de estreia e perdendo o jogo de volta por 4 a 2 em Paris, 24 horas depois, diante de uma torcida hostil. Essa eliminação precoce se tornou o pior resultado da Alemanha em Copas do Mundo, desconsiderando as edições de 1930 e 1950, nas quais não competiram.
A Áustria só voltaria a disputar uma Copa do Mundo de forma independente em 1954, quando chegou até as semifinais e ironicamente, foram eliminados pela Alemanha. Na ocasião, os austríacos terminariam a Copa como terceiros colocados, seu melhor desempenho na história.



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