No futebol, existem nomes cuja importância transcende a área de atuação na qual se destacou. Assim é com jogadores, técnicos e outros profissionais. Mas há uma casta rara nesse meio: o dos que se tornaram gigantes como jogador e como técnico. Zagallo está entre eles.

Contam-se nos dedos nomes que tenham sido gigantescos dentro e fora das quatro linhas. Cruijff, Beckenbauer, talvez mais um ou outro. São tantos títulos, conquistas e marcas que é difícil listar até mesmo os mais importantes. E nessa tonelada de informações e feitos é natural que alguns deles sejam exaltados além da conta ou que, ao contrário, sejam colocados injustamente em xeque. E Zagallo foi, sem dúvida nenhuma, um dos alvos mais notórios dessas análises contraditórias. 

A começar pela sua conquista mais discutida e celebrada: o Tricampeonato em 1970. Com pouco mais de dois anos de experiência como treinador, assumiu a seleção poucos meses antes de ter início o mundial do México. Além da pressão natural de um técnico assumindo nessas condições, tinha sobre si dois pesos adicionais: o primeiro era comandar uma seleção completamente sitiada pelo patrulhamento ideológico da ditadura militar, tendo de afastar toda essa bruma política e fazer o time pensar apenas no futebol. A outra sombra que o perseguia era substituir um técnico que havia obtido apenas a maior campanha de Eliminatórias de Copa em todos os tempos. Missão duríssima, que ele cumpriu com louvor. 

A conquista do Tri está na lista dos grandes feitos subestimados de Zagallo. Nos últimos anos, tornou-se clichê dizer que a seleção de 1970 venceu a Copa APESAR dele, que o velho lobo pegou um time já pronto e se aproveitou disso. Nada mais errôneo.

Em primeiro lugar, Zagallo foi extremamente inteligente e hábil ao montar o time que disputou a Copa. Alterou as feições do time o suficiente para ter a sua cara – e não a de João Saldanha – mas não o descaracterizou demais a ponto de ter de recomeçar um time totalmente do zero a três meses da estreia. 

E ao montar o time, deu a ele uma de suas características mais pessoais como treinador. A seleção brasileira deixou de ser um time altamente incisivo, agressivo o tempo todo para ser um time mais cadenciado e estudioso. Se a experiência de Saldanha foi excelente para as Eliminatórias, a de Zagallo foi crucial para enfrentar times mais fortes e inteligentes e que, evidentemente, haviam estudado a Seleção nos meses anteriores. A forma como o time reagiu aos gols de Uruguai e Itália na reta final são bons exemplos. 

Mais do que isso: ao mudar jogadores de posição (o volante Piazza foi para a zaga e o meia Rivelino atuou como falso ponta) ele criou uma mobilidade tática inovadora para a época. Tudo isso, aliado à excelente preparação física e, lógico, ao talento incomparável do elenco, fez parte da receita vencedora nos gramados do México. 

Outra grande conquista na qual tentam diminuir seu papel é a Copa de 1958 na Suécia, esta como jogador. Zagallo foi à Copa como reserva de Pepe, um jogador muito mais ofensivo e habilidoso e que tinha como vantagem o chute fortíssimo e o faro de gol – é até hoje o maior ponta artilheiro da história do futebol brasileiro e o segundo jogador com mais gols pelo Santos (atrás apenas de Pelé). Após a contusão do santista, o ainda Jovem Lobo assumiu a titularidade e dela não saiu mais. Embora só tenha assumido a posição devido à contusão do titular, é falso dizer que ele não tinha credenciais para jogar naquele timaço. 

Em primeiro lugar, sua principal característica como jogador – atuar como ponta recuado, fechando o meio-de-campo em vários momentos – foi fundamental para que Vicente Feola pudesse implementar um esquema tático ofensivo, mas bem protegido. Vale lembrar que foi esse reforço de Zagallo na marcação que permitiu ao técnico escalar Garrincha na ponta livre, leve e solto, como deveria ser. E também contribuiu para que o lateral-esquerdo Nilton Santos ajudasse no ataque marcando gol (na estreia contra a Áustria) e dando assistência (para o golaço de Pelé na final). 

Outra coisa que passa batido pelos críticos era o vigor físico de Zagallo, que fez diferença em vários jogos. Conhecido na época como “Formiguinha”, chamava a atenção por se mover rapidamente de um setor para outro, coisa rara para a época. Em vários jogos ele voltava para desarmar um adversário, depois que este já tinha passado pelos laterais, e saía com a bola dominada. Em seguida armava o contra-ataque e, segundos depois, estava lá na ponta cruzando para Pelé e Vavá. Essa característica ajudou a desmontar os esquemas táticos dos adversários mais fortes. As mortíferas linhas de ataque da França e da Suécia foram neutralizadas e seus esquemas defensivos também bugaram. 

Zagallo superestimado

Mas claro, há também o outro lado da moeda: a celebração descabida. E o caso mais notório é o de sua participação na comissão técnica que obteve o Tetracampeonato em 1994. Sua presença ajudou a engordar ainda mais a já extensa ficha corrida de conquistas do Velho Lobo: a partir de então ele se tornou o único ser humano a conquistar quatro Copas (duas como jogador, uma como técnico e agora como Coordenador Técnico). Vale lembrar que, na época, ele se firmava como a pessoa que estava presente em TODAS as seleções brasileiras que ganharam Copa (isso só mudaria no Penta, em 2002). É conquista para mais de metro, mas sua importância foi muito menor do que a apregoada por ele. 

A tarefa principal de Zagallo na comissão técnica de 1994 era atuar como um motivador: alguém com experiência de sobra para fazer preleções impactantes, impor respeito e, de certa forma, mostrar aos adversários que aquele velho Brasil vencedor ainda existia e que sua presença à beira do campo era a prova disso. É um papel importante, mas não fundamental, como alguns na imprensa tentaram fazer crer. Parreira, a despeito de alguns erros e teimosias, conseguiu montar um esquema tático azeitado, com um sistema defensivo sólido, um meio de campo que sabia marcar e sair com a bola com eficiência para municiar a destruidora dupla de ataque Bebeto-Romário. É dele o grande mérito pelo título na Comissão Técnica.

Naturalmente, um técnico que obteve tantas conquistas e que viveu altos e baixos como Zagallo está exposto a esse tipo de interpretação equivocada de seu papel. A grande verdade é que, com a sua morte esta semana, Zagallo será avaliado com cada vez mais carinho e cuidado, guardado que estará na Eternidade merecida. 

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