15 de junho deveria ser feriado, pelo menos pra quem é brasileiro e ama futebol.
Foi nessa data, mais precisamente em 1958, que o rei do futebol estreou em uma Copa do Mundo aos 17 anos. E ele não vinha só, neste mesmo dia o craque das pernas tortas, Mané Garrincha, também fazia sua estreia como titular em Copas do Mundo. E o mundo, daí em diante não seria mais o mesmo.
Pelé e Garrincha em 1958 (Foto: A Gazeta Esportiva)
Era a primeira vez em que Pelé entrava em campo vestindo a 10 amarela, que naquela época nem era tão pesada assim, aliás, os melhores do mundo em 1958 não tinham interesse nenhum em usar o número, acredite se quiser. Pelé era o mais novinho da equipe que foi pra Suécia e “sobrou” pra ele a mística 10. Aquela que hoje virou sinônimo de craque e cérebro de uma equipe.
Os primeiros passos dessa parceria vencedora aconteceu na partida contra a URSS, válida na fase de grupos da competição.
A ocasião faz a seleção
Em 1958, o Brasil tinha pela frente em seu grupo a Áustria, a Inglaterra e a União Soviética. O primeiro jogo contra a Áustria foi moleza, a Seleção ensacolou 3 a 0 e tudo deu certo. A pulga atrás da orelha começava contra a Inglaterra. Um 0 a 0 triste, sofrido e bem pouco criativo. O fantasma de 1950 e 1954 mais uma vez batia na nossa porta e os líderes daquele time Bellini, Nilton Santos e Didi foram até o quarto do treinador Vicente Feola acompanhados do chefe da delegação Paulo Machado de Carvalho em busca de uma solução pra melhorar o desempenho do time no jogo seguinte contra a URSS.
Muita conversa depois, eles decidiram que Zito entraria no lugar de Dino Sani pra ajudar a liberar o craque Didi.
Também optaram por sacar Mazola, que um pouco antes da Copa acertou sua mudança de clube sendo comprado pelo Milan (ITA) e eles ficaram receosos que ele pudesse ir, digamos, com menos vontade para as divididas para evitar lesões. Para o lugar dele, iam com um certo garoto de 17 anos que brilhava no Santos nos últimos dois anos e estava 100% depois de uma lesão muscular, seu nome era Pelé.
E não acabava aí, como uma arma surpresa contra os soviéticos, Garrincha entraria no lugar do talentoso Joel.

Os Soviéticos ainda não sabiam, mas essa dupla ia acabar com o sonho deles
A entrada de Garrincha era pra acabar com os planos da URSS, atuais campeões olímpicos, que trabalhavam com uma extensa base de dados, conheciam bem os adversários e suas características.
Há uma lenda de que um computador mega avançado para a época era uma das armas do time soviético e que ele já havia calculado as altas probabilidades de título da equipe naquele mundial.
A tecnologia Russa não previu a dupla Mané e Pelé
Vencer o mundial na Suécia era uma questão política para a URSS, que teve alguns conflitos no país alguns anos antes. E como quase tudo durante o período da Guerra Fria, a seleção soviética usava métodos e tecnologias que hoje são comuns, mas ainda eram novidades nos anos 1950, como exames de detecção de lesões, acompanhamento fisiológico e treinamentos específicos por posição. Além disso, eles tinham olheiros/espiões que observavam cada detalhe de seus adversário no mundial, para poder estudar a melhor maneira de neutralizá-los. Só não conseguiam prever a genialidade e a esperteza brasileira.
Garrincha chutando ao gol da URSS (Foto: Goal.com)
Eu tenho um plano
Depois de decididas as mudanças na Seleção Brasileira para essa partida, rolou uma série de estratégias na véspera do jogo para poder ganhar ele antes mesmo da bola rolar. Vicente Feola avisou aos jornalistas que o treino seria na parte da tarde, mas fez um treino secreto pela manhã para testar a nova formação e testar uma nova estratégia: mandar a bola em Garrincha e não deixar os russos respirarem.
Funcionou.
Os três minutos mágicos
O plano foi melhor do que o imaginado e o que se viu foi a pressão imensa que o Brasil impôs aos soviéticos logo no começo do jogo. Foi avassalador.
Bola em Garrincha que partiu pra cima dos zagueiros com dribles rápidos e emendou um potente chute na trave.
Enquanto o técnico Katchalin tentava entender o abafa brasileiro e o motivo pelo qual o atacante Joel havia ficado no banco para o lugar de Mané, Didi recebeu no meio campo e lançou pra Pelé, que também acertou a trave do lendário goleiro Lev Yashin, o Aranha Negra.
O Brasil envolvia o adversário e massacrava com uma blitz, até que Didi, bastante livre pelo meio, recebeu uma bola e fez a infiltração pra Vavá que recebeu de frente pro gol e abriu o placar. 1 a 0.
Por essa emocionante narração de Edson Leite e Pedro Luiz, na Rádio Bandeirantes, dá pra ter uma boa ideia do que foi esse começo de jogo empolgante do Brasil:
E não foi delírio de torcedor empolgado, quem descreveu esse momento como “os mais encantadores da história do futebol” foi o jornalista francês Gabriel Hanot, idealizador da Taça dos Clubes Campeões Europeus, (a atual Liga dos Campeões).
Mas e os outros 87 minutos?
Levou um tempo, mas o forte time soviético voltou ao jogo eventualmente e conseguiu impor seu jogo físico. Mas não foi o bastante pro talento brasileiro e a recuperação nunca veio mesmo, tanto que aos 31 do segundo tempo, Vavá tabelou com Pelé e matou a partida.
Para muita gente esse foi só mais um jogo de grupos que classificou o Brasil, mas foi aí que Pelé e Garrincha entraram de vez para aquele time que depois passaria por País de Gales, França e Suécia jogando o fino da bola (e aqui vale usar este clichê porque de fato jogaram muito) e levantaram o primeiro título mundial da nossa seleção.
A dupla Pelé e Garrincha NUNCA perdeu jogando junto
É uma pena, por exemplo, que em 1966 eles não conseguiram jogar juntos por mais partidas além da estreia naquele mundial porque inevitavelmente o Brasil teria feito o Tetra entre 1958 e 1970. Sem exagero algum.
Ao todo, eles estiveram em campo juntos 30 vezes, com 26 vitórias e 4 empates.



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